domingo, 26 de novembro de 2017

Um último encontro

O dia de se encontrar com pessoas especiais deixa a gente inquieto, se programando sem parar. A expectativa era enorme para aquele momento: já fazia meses desde a última vez que tivemos um tempo juntos e a saudade apertava o peito com força. Não era preciso muito para que fosse especial, bastava apenas a presença, o afeto, até mesmo o silêncio seria prazeroso.

O último encontro havia sido mágico, mas não tão íntimo. Havia elementos externos que estavam afetando o momento. Foram muitas risadas gostosas, conversas bacanas e sentimentos trocados entre olhares e gestos de afeto, alguns discretos, outros nem tanto. Eu sabia que não duraria para sempre, então já queria o próximo. "Vê se não me ignora", disse com a inocência desesperada de uma criança carente e sozinha.

E daí pra frente parecia que tudo tinha sido dito ao contrário. Aquele havia sido o último de alguns encontros contados nos dedos, todos ligeiros como reuniões ou cafés entre executivos. Profissionais. Extremamente profissionais. De quem não havia prometido nada, nada além de um Dia Branco. "Se branco ele for; o sol, se o sol sair; a chuva, se a chuva cair". Não se promete nada, mas a confiança fica ali, "se você quiser e vier, pro que der e vier, comigo".

Uma mensagem havia surgido, logo quando já estava desistindo de insistir. Desisti de desistir assim que li o trecho que dizia assim: "(...) me perdoa se parecer que tô fugindo, mas não tô (...)". Meu coração apertou e pediu mais uma chance para a razão. Ela concordou, mas pediu um tempo antes de se abrir para a ideia.

Aquela sensação foi sendo amaciada pelas pancadas que a vida dava, como um pedaço de carne que sangra ao ser martelado até ficar engolível. E tantas eram as evidências da razão que o coração aos poucos se rendia, mas a promessa permanecia: existiria um último encontro.

O turbilhão passou. A poeira do cansaço e da dúvida ainda pairava no ar. Mas a criança interior não se contenta com a espera: ela corre atrás e pede o que quer. Fala o que sente, mas só as partes que lhe interessam, pelo medo de acabar perdendo aquilo que tanto esperou conseguir. E foi assim que, mensagem após mensagem, uma data foi marcada.

A expectativa era enorme. Mal conseguia me segurar, continuava falando e pensando sobre aquilo o tempo inteiro. Forçava contato, como se ajudasse a fazer o tempo andar mais rápido. Mas o tempo tem seu ritmo próprio e não tem outra forma de caminhar a não ser no seu passo.

Fim de semana da outra semana. Todo o resto não importava. Num desses dois dias estaria de volta ao paraíso, mesmo que por alguns instantes. Parecia um sonho. E o tempo ajudou.

Chegou o momento. O contato foi feito. O dia amanheceu, a noite caiu. O céu nublou, o sol ressurgiu. O sorriso chegou. O sono bateu. O sonho... Sonho... O olho se abriu. E o último encontro havia acontecido.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A gente chega sozinho...

Neste mês de maio completei exatos 4 anos desde que saí da casa dos meus pais e vim parar nessa cidade chamada Viçosa (mais conhecida pelos estudantes que aqui habitam como 'Viciosa'), localizada numa coordenada geográfica que, se olhasse apenas pelo mapa, seria bem perto de tudo, mas fica tão distante e inacessível que mais me lembra o 'El Dorado'.

Para chegar até aqui, preciso sempre percorrer um longo caminho. De ônibus, quando menos atrasa, demora em torno de 18 horas. Quando dou a sorte de achar promoção de passagem aérea, acabo indo até Belo Horizonte, levando por volta de 7 a 8 horas até avistar o supermercado Bahamas, confirmando que finalmente cheguei.

Para praticamente todos com quem converso, essa viagem parece muito cansativa e dizem que não se submeteriam a isso com a mesma facilidade que eu aparento ter. O que muita gente não sabe é que não é fácil. Não tem um dia que não penso na minha casa perto do litoral, em como lá tem brisa e ruas mais largas, e que é possível ver o céu azul e as estrelas sem fazer muito esforço, porque a verticalização não atingiu o espaço urbano de lá.

A verdade é que a gente chega sozinho aqui. E continua. Cada um de nós, sozinhos nas nossas experiências, nas nossas angústias, nas nossas saudades... Mas também é verdade que chegamos e continuamos sozinhos em momentos de conquista, de comemoração e de pequenos prazeres diários.

É com o tempo que começamos a conhecer e nos aproximar de outras pessoas que também chegaram sozinhas, mas que continuarão sozinhas como cada um de nós. Bem semelhante ao meu longo caminho de ônibus para chegar geograficamente até aqui: vem conhecendo novos lugares que te impressionam com a beleza, a miséria, te deixam entediado olhando pela janela ou que embalam trilhas sonoras e fotografias que ficarão guardadas no coração e na memória - existem rotas a seguir, internas e externas, para conhecer pessoas.

E cada pessoa passa a compartilhar essas rotas conosco, trocando experiências e saberes. Desentendimentos e prazeres. Amores e deveres. Desinteresse. Interesse mútuo.

Cheguei aqui sozinho e perdido. Claro, minha prima veio me ajudar com a mudança. Os amigos da minha mãe me acolheram como se fossem meus pais, tios e tias. Eu estava aqui, acolhido, protegido. Mas perdido e só. Apenas depois que entrei nas rotas é que comecei a me sentir menos perdido, ao mesmo tempo que me senti acompanhado e acompanhando.

Na primeira semana de aula, quando finalmente estava seguro para interagir com outros seres humanos, opinei na conversa de colegas que nunca tinha visto na vida e um deles me disse: "nossa, você fala. Achei que era autista." Foi um golpe brutal em quem já vinha lutando contra um bloqueio para relações pessoais e acabava de se mudar para um novo contexto cultural. Não demorou muito para que fosse possível ver a situação se transformando e, de certa forma, se invertendo.

É uma questão de feeling. A gente realmente chega sozinho, continua sozinho, mas aprende a curtir toda a viagem. Aprende a fazer companhia. A saber quando a gente não quer mais ficar sozinho - ou como faz bem poder compartilhar um pouquinho da nossa existência com o outro. E também sabe a hora de se recolher para aproveitar a própria companhia.

Não dá pra dizer que a viagem de volta para as minhas casas (sim, na Bahia e em Minas) seja a melhor viagem de todas, nem mesmo a que eu consigo descansar mais. Mas ela se tornou muito agradável, tão agradável que nem me preocupo com o tempo. Durmo, leio, dou risada, conheço gente nova, interajo com as crianças... O que for preciso para aproveitar o melhor que aquele momento pode me proporcionar. O momento do incômodo vem sempre antes de começar (às vezes uma semana antes). Mas é só embarcar pra logo pegar a onda. Sem olhar para trás. Só curtindo a viagem.


Logo mais é hora de andar de novo.
A ansiedade já bateu aqui.
Espero conseguir arrumar as malas
e que eu possa me despedir.

É longa essa viagem
mas é o que temos a seguir.
Se não nos virmos, um até breve.
Se der saudade, tô por aí!

*Uma poesia do Saulo para fechar:

A saudade, o amor e o sorriso
O abraço, o infinito e a surpresa
O pé, a pausa e a porta
A ponte, o tempo e a pressa
A gratidão, o mar e o profundo
O pássaro, a flor e o eterno
A reza, o sim e a sorte
A beleza, o canto, e a cura
O velho, o espírito e a voz
A música, o servo e o instrumento
O vento, a direção e o encontro
A árvore, o livre e o chão
A folha, o barulho e a terra
O triz, o fio e o segundo
O instante, a luz e o mistério
O mundo, a menina e a fé
O sereno, a paz e a alma
A vida, a vida e a vida





quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Caminhos e ladrilhos

Escrevi este texto na minha cabeça enquanto caminhava pelo campus mais lindo do mundo, aproveitando cada instante, cada sensação, cada pequena onda que os filhotes de pato faziam na lagoa próxima do meu local favorito daqui, que é por onde passo quando meu coração pede calma e minha alma quer se aconchegar no som do silêncio.

Comecei pouco depois de chegar na árvore que chamo de minha. Ela estava lá, frondosa, mas com menos folhas e galhos do que me lembrava. Prestei atenção nos caminhos que suas raízes faziam e como elas se conectavam com a terra e com as raízes de outras árvores. Como algumas partes delas estavam expostas. E ali, por onde uma delas passava, estava um caminho ladrilhado, no meio do matinho.



Naquele exato momento me lembrei da professora Iacyr falando sobre os caminhos e os ladrilhos. Exatamente aqueles que estavam na minha frente! Ela disse uma vez que os costumes são como os caminhos e que as leis são como os ladrilhos: primeiro a gente abre a passagem por um lugar onde ninguém tinha passado, depois segue passando por lá até que, com o tempo, aquele caminho fica tão comum, tão convencional, que começam a ladrilhar para incentivar que a gente passe por lá, sem precisar abrir outros caminhos.

Mas não adianta: se o caminho ladrilhado deixar de ser tão eficiente quanto andar livremente em outra direção para chegar naquele mesmo lugar, logo outros caminhos serão abertos (e alguém vai mandar ladrilhar - não é a toa aquela musiquinha de ninar).

O que importa aqui é a metáfora do caminho e dos ladrilhos: o caminho vem antes e não necessariamente se pensa quando ele está sendo feito. A GENTE VAI. Passa por cima da grama, das raízes, tem gente que sobe nas árvores e que até escala montanhas. Já pensou naquela galera que explorou pela primeira vez a incrível arte de fazer pontes? Essa galera teve que atravessar lagoa, rio, mar, precipício, enfim, teve que dar um jeito de fazer o caminho, ver o que tinha do outro lado e depois disso inventou de ladrilhar.

Então primeiro a gente vai. Primeiro bota o pé no chão. A gente sente a terra, sente tudo que tem que sentir. Experimenta a sensação alucinante de desbravar algo, de quebrar regras, de passar por fora do caminho ladrilhado pelos outros. É a liberdade que não se compra, mas se paga caro pra manter. Todos os dias.

Com o tempo a gente pode até ladrilhar os nossos próprios caminhos do jeito que quiser. Vai que dá vontade de passar por ali de bicicleta ou de skate? É ao gosto do chef. Mas não se pode alienar seu direito (um grande poder/dever) de abrir e cuidar dos caminhos por onde vai passar. De fazer suas raízes se espalharem, se exporem e se conectarem para que possa crescer como a minha árvore. Para que tenha sempre, por onde quer que ande, aquela sensação de lar. Nem que precise quebrar alguns ladrilhos para isso.




Retificando uma informação: a professora Iacyr me pediu para acrescentar que não foi ela quem comparou os caminhos e ladrilhos da UFV com os costumes e as leis, mas sim o Professor José Dionisio Ladeira, do Departamento de Letras. Ela apenas nos apresentou tal comparação em uma de suas aulas.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Mais elegantes no frio

Acabou o verão. De uma vez, todas as minhas "ites" vieram com o cair das folhas e da temperatura. Não consigo mais usar roupas leves e curtas. Dificilmente tenho condições de correr, algo que eu amo tanto. Minhas caminhadas vespertinas e noturnas também terão de esperar um pouco. Me sinto estagnando, enclausurado em casa e todo dolorido. E ainda nem é inverno. Ó céus.




Toda vez que tenho oportunidade falo bem alto "EU ODEIO FRIO!", e, não mais que de repente, sou repreendido por alguém que fala "tá louco? Eu amo frio!". Em seguida, fala como o frio é bom para que as pessoas possam se vestir com várias camadas de roupa (lindas, por sinal), se olharem no espelho e se sentirem elegantes, mais bonitas e arrumadas, sem o incômodo suor que borra a maquiagem ou deixa manchas (a famosa "pizza" debaixo dos braços já não aparece tanto).

Falam também do vinho e da diminuição da fadiga, dos dias de chuva e das cobertas. Das séries. Dos livros. Dos filmes. Das comidas e bebidas mais quentes, que, por sinal, aquecem o corpo. O corpo precisa ser aquecido no frio para que não fiquemos doentes. O frio é legal para essas pessoas. Ele me dói, mas parece que o que deveria importar para mim é que o frio me possibilita ficar mais elegante, mais culto. E só.

Ok. Tem gente que gosta de se vestir com mais roupas ou tons mais escuros e no calor talvez não seja confortável de fazê-lo. Tem gente que gosta do vinho e de dormir com cobertor, então o frio seria mais propício de aproveitar esses pequenos prazeres.

Mas por que mesmo que "as pessoas ficam mais elegantes no frio"? Será que é porque elas fazem coisas que gostam de fazer? Será que é porque podem fazer coisas historicamente tidas como "cultas" (e europeias) nesse nosso 'país tropical abençoado por Deus'? Ou será que o frio tem refletido o que tem sido cultivado na nossa sociedade: camadas de aparência colocadas sobre um corpo frio que precisa de afeto e movimento para se aquecer?

Parece que fiz um longo salto lógico aqui, mas é importante fazê-lo. Quando eu digo que odeio o frio, me refiro a vários tipos de frio. Inclusive o físico, que me desperta dores também físicas (nas juntas, nos músculos, nos seios da face...), mas também me refiro ao frio interior. Gente fria. No máximo simpática, que corta a gente quando queremos uma conexão de verdade, troca de calor, de vivência. Gente que usa camadas e camadas de aparência para aquecer um corpo frio de forma artificial.

Eu gosto bastante da ideia do meio termo (mais para o calor, por óbvio), tanto que minha estação favorita é a primavera. Acredito muito nos ciclos e na necessidade deles para que a vida se desenvolva, mas é na primavera que os animais voltam para a superfície, acordam do estágio de hibernação (quando não precisam mais se abrigar do frio exterior) e voltam a interagir entre si naturalmente.

E não há nada de errado em gostar desse meio termo. Não é preciso definir uma luta entre calor e frio em extremos, até porque ambos são fatores subjetivos da experiência. Há momentos em que estamos mais afim de hibernar, ficarmos a sós, introspecção. Há outros em que ficamos dispostos a "botar a cara no sol", sair e interagir. E tudo bem com isso. São ciclos autênticos mesmo.

Olha só, se você gosta de um tempinho mais frio eu te compreendo, ok? Inclusive eu já li que a melhor forma de se aquecer no frio é contato entre peles. Sim, dois corpos quentinhos juntinhos, Nuzinhos da Silva, são melhores até que aquele casacão que protegeria um só. Isso também se aplica às nossas relações.

Cá entre nós, prefiro correr pelado (ou quase isso) do que ficar travado com um monte de roupa que limita meus movimentos, até mesmo de dar ou sentir um abraço. A elegância, pra mim, está estampada no corpo: nos olhos, nos lábios e nos gestos.



domingo, 16 de abril de 2017

Cheirinho de praia



Era sábado a tarde. Bruno se preparava para mais uma semana que viria com tudo. O sábado é o dia que ele tira para ficar a toa e fazer tudo aquilo que vier na cabeça de repente, não mais que de repente. Os sábados de Bruno são muito atípicos e ele gosta disso: ninguém, nem mesmo ele, prevê o que será desse dia incrível, quando a sua imaginação e motivação estão no ápice.

Já tinha resolvido algumas questões que estavam perturbando a mente dele e de gente próxima, foi na rua procurar um lugar para cortar os cabelos, mas não conseguiu achar nada aberto, porque naquele sábado especificamente as coisas estavam fechando pela manhã ou simplesmente as pessoas decidiram não ir trabalhar, pois na sexta havia sido feriado. Ele foi almoçar, mas o lugar onde ele queria comer também não estava aberto, então deu meia volta e foi no segundo lugar onde queria ir e seu dinheiro podia pagar.

Ao voltar para casa, Bruno resolveu cuidar de si. Tinha algumas pequenas feridas para tratar, resolveu mexer nos cabelos por conta própria - só não iria cortá-los porque as experiências passadas dessa natureza não foram bem sucedidas - e dar um jeito na pilha de coisas que estavam fora do lugar. Tudo isso lhe veio na cabeça não mais que de repente.

Mas foi enquanto ele cuidava do seu rosto que lhe veio uma doce lembrança: ao abrir o protetor solar, Bruno sentiu o cheirinho de praia que ele tanto gosta. Sabe como é o cheiro de praia? Um cheiro bem gostoso e aconchegante, que lembra um calor confortável, a água do mar, a areia, toda a diversão e atmosfera que só se conhece na praia.

Sentir o cheiro de praia daquele protetor solar fez com que ele entrasse numa experiência só dele, cheio de lembranças gostosas e sensações que o faziam estremecer por toda a espinha, começando de cima para baixo, tomando conta do seu corpo. Naquele exato momento, Bruno já não estava mais dentro do seu apartamento.

Ele já estava se imaginando correndo, o corpo se bronzeando, coberto de água, sal e suor. As cores que vinham a sua mente eram o amarelo do Sol, dos sombreiros e das mesas e cadeiras, o azul do céu misturado com o azul esverdeado do mar, que se juntava ao branco da espuma das ondas e ao tom quase bege da areia da praia, além de alguns pontos verdes que o faziam lembrar dos cocos e das árvores do litoral. A cena veio à sua mente muito rápido e o prazer tomou conta da sua existência naquele pequeno instante. Bruno se sentia ainda mais em casa agora. Não demorou muito, já tinha passado aquele protetor pelo corpo como se vestisse a sua melhor roupa ou tomasse um banho do seu melhor perfume.

Era ainda de tarde, ele tinha muitas outras possibilidades e encontros para aquele dia, mas foi aquele instante que fez valer todo o seu dia. Ele saiu de casa confiante de que aquele cheiro conquistaria a todos que encontrasse dali em diante e que tudo estava maravilhoso, porque, por um instante, Bruno esteve no seu mais singelo paraíso. E, uma vez no paraíso, tudo se torna divino.

Foi assim que ele entendeu que o divino não é nada extravagante, mas tem cheirinho de praia e mora dentro dele, só precisava se lembrar disso.

(Este caso não acaba aqui. Há algum tempo eu comecei a escrever um pequeno livro chamado "Em Dias de Cão", contando a história do Bruno e as reviravoltas de um momento da sua vida. Vou continuar escrevendo e compartilhando com vocês partes aleatórias por aqui. Não se assustem caso não faça muito sentido :D)