sábado, 16 de junho de 2018

Martírio

Foi em 2012 quando publiquei um texto chamado "A arte de andar nas ruas (até 01 de janeiro)". Com um título inspirado na obra "A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro", de Rubem Fonseca, demonstrei como era ruim andar pela cidade em época de eleições. Há seis anos, o que me incomodava eram os cavaletes nas calçadas, a hipocrisia dos candidatos que diziam querer cuidar da cidade e a quantidade imensa de papéis (de trouxa) que os mesmos jogavam no meio das ruas. Parece que, depois de adulto, mas nem tão mais velho, os incômodos tornaram-se medos.

Não faz muito tempo, eu tinha uma paixão enorme pela atividade política. Abraçava o prefeito da minha cidade como se fosse meu amigo (já que tinha por ele um afeto de conhecido da minha mãe), participava de programas da rádio dele, tirava fotos e tudo mais. Pouco tempo depois, esse mesmo senhor terminou seu mandato com vários processos nas costas e não quis (ou não pôde) mais se
candidatar a cargo algum na gestão pública. Para uma criança inocente, era inconcebível que aquela pessoa tivesse feito algum mal. Seus sucessores, ou sucessor, no caso, era uma pessoa que não parecia tão carismática e acolhedora do povo quanto ele. Era um senhor que já me fazia não gostar tanto assim daquele meio. Mas é incrível a capacidade desse senhor de ganhar votos. Hoje ele está em seu terceiro mandato como prefeito, enquanto o prefeito anterior nunca mais concorreu a eleição alguma.

Nesse meio tempo, a minha atuação política foi florescendo e recebendo nuances distintas em cada estação. No ensino médio, quando entrei na parte mais rebelde da adolescência, conheci o movimento estudantil e as representações discentes. Foi ali que tive minhas primeiras experiências em cargos representativos e que, em 2010, conquistamos as primeiras eleições presidenciais simuladas, numa campanha pautada em um projeto de nação muito bem amarrado e didaticamente explicado. A política, para mim, não poderia ser feita de outra forma como aquela que fizemos e que alcançou o primeiro lugar: ele anseia pela democracia como a democracia anseia por ela.

Isso durou muito pouco. Quando a situação apertou na instituição, com as eleições internas para a direção do Campus, eu vi a política sendo feita na sua outra face: "xoxa, capenga, manca, anêmica, frágil e inconsistente". Um dos lados buscava cooptar os partidários do outro oferecendo benefícios e simpatia. Quando percebia que essa estratégia não funcionaria, passava a utilizar de ameaças para calar os opositores da situação. Não houve vitória de um projeto de instituição educacional. Não havia qualquer coisa além da manutenção de um grupo de poder. Isso foi, aos poucos, destruindo quaisquer alternativas de lideranças e, quando chegou ao fim a possibilidade de manter o ciclo, só restava o discurso único. Ninguém mais queria ocupar os espaços de poder, a não ser os pequenos aliados daquele mesmo grupo.

Eu mesmo fui perseguido nessa cruzada. Deixei de militar no movimento estudantil depois de ter sido ameaçado, seja pelas fofocas nos corredores ou pela própria pessoa que tentou me cooptar pela simpatia anteriormente, de ter uma comissão de sindicância aberta contra mim sem que houvesse qualquer desabono de minha parte. Havia, porém, um álibi forjado. Buscaram fundo uma condição para que eu pudesse ser censurado, mesmo no meu último ano do ensino médio. E foi assim que eu deixei de atuar diretamente nas ações coletivas.

Depois de 2012, o país adentrou um novo ciclo estranho no campo da representação política e das manifestações. Antes, os protestos tinham cara, cor e até mesmo partido, era claro quem estava por trás de cada movimento, a face de suas lideranças. Cada uma delas carregava consigo pelo menos uma bandeira progressista bem elaborada e consistente. De 2013 em diante, as manifestações tornaram-se difusas. Parecia que estava vendo o filme que se arrastaria até os dias de hoje: pessoas que nunca saíram de suas casas para apoiarem os protestos dos professores da minha cidade ou de outras, de repente começam a ir às ruas pedindo mais educação. As mesmas pessoas que reforçavam que estudantes e professores eram vagabundos por fazerem greve e mobilização por essa bandeira. Mas ali não havia uma liderança sequer. Não havia uma bandeira que não fosse a verde, amarela, azul e branca. Era uma massa amorfa, com pedidos genéricos e abstratos, que não seriam aceitos por qualquer bom juiz que ainda exista no país.

Estava vendo o discurso único tomar forma mais uma vez e já sabia por experiência que aquilo não era bom. Que logo mais os espaços de poder estariam sendo disputados de novo, mas as pessoas que questionassem a situação seriam exaustivamente censuradas ou desencorajadas a tentar ocupá-los. E que, lenta ou rapidamente, as alternativas de liderança se esvaziariam e permaneceriam apenas os pequenos aliados da situação. Foi assim que, de 2013 em diante, nunca mais fui a uma manifestação de rua como participante, apenas como observador.

Weber me acertou com um soco na boca do estômago: eu já havia me desencantado. Mas até o desencanto tem seu lado bom: isso me permitiu crescer e olhar de outra forma o jogo político e as formas como tem sido construída e destruída a nossa frágil República. O desencanto permitiu também que eu pudesse me reencantar em outras frentes, vivenciar boas práticas e abrir os olhos para as possibilidades, sem a magia do dogma ou as correntes inconscientes da coletividade. O pensamento e o sentimento passaram a dar um pouco mais as mãos, para que não "negasse as aparências", nem "disfarçasse as evidências". A minha paixão pela política e pela democracia voltou, mas com outra forma, outras cores e outros cheiros.

Se o caso Marielle Franco já tem mais de 3 (três) meses sem solução, foi por causa dele que resolvi escrever este texto, que também fazia 3 meses que estava engavetado. Às vezes é difícil conceber tamanho martírio. A pessoa se envolve na luta para tentar ocupar o espaço de poder e impedir que o discurso único assalte a nação e, não mais que de repente, é o discurso único que assalta sua vida e a sua presença de todos aqueles que te amam e te consideram. E não se consegue alento para tamanha perda. Morrer por uma ou várias causas. Por ter paixão, acreditar no jogo democrático e ser assombrosamente silenciada "como exemplo".


Pensar nisso me deixa covarde, como já fui no final do meu ensino médio. Esse medo me paralisa e me faz querer sair correndo dos holofotes. Me ater aos bastidores. Mas isso não quer dizer que, ao fazer isso, eu não possa colaborar com quem tenha mais coragem do que eu. Até porque isso pode mostrar para outros tantos, inclusive para mim, que é possível combater o discurso único. Que é possível recuperar a democracia. Que é possível fazer política sem ser líder. Que é possível e eu já o fiz.

Os golpes fazem doer. Alguns fazem até sangrar. Mas não são todos que nos fazem morrer. Para além das paredes do discurso único há um vasto campo de possibilidades. É tempo de curar, mas também é tempo de refletir, de planejar e, principalmente, é tempo de reencantar.

domingo, 26 de novembro de 2017

Um último encontro

O dia de se encontrar com pessoas especiais deixa a gente inquieto, se programando sem parar. A expectativa era enorme para aquele momento: já fazia meses desde a última vez que tivemos um tempo juntos e a saudade apertava o peito com força. Não era preciso muito para que fosse especial, bastava apenas a presença, o afeto, até mesmo o silêncio seria prazeroso.

O último encontro havia sido mágico, mas não tão íntimo. Havia elementos externos que estavam afetando o momento. Foram muitas risadas gostosas, conversas bacanas e sentimentos trocados entre olhares e gestos de afeto, alguns discretos, outros nem tanto. Eu sabia que não duraria para sempre, então já queria o próximo. "Vê se não me ignora", disse com a inocência desesperada de uma criança carente e sozinha.

E daí pra frente parecia que tudo tinha sido dito ao contrário. Aquele havia sido o último de alguns encontros contados nos dedos, todos ligeiros como reuniões ou cafés entre executivos. Profissionais. Extremamente profissionais. De quem não havia prometido nada, nada além de um Dia Branco. "Se branco ele for; o sol, se o sol sair; a chuva, se a chuva cair". Não se promete nada, mas a confiança fica ali, "se você quiser e vier, pro que der e vier, comigo".

Uma mensagem havia surgido, logo quando já estava desistindo de insistir. Desisti de desistir assim que li o trecho que dizia assim: "(...) me perdoa se parecer que tô fugindo, mas não tô (...)". Meu coração apertou e pediu mais uma chance para a razão. Ela concordou, mas pediu um tempo antes de se abrir para a ideia.

Aquela sensação foi sendo amaciada pelas pancadas que a vida dava, como um pedaço de carne que sangra ao ser martelado até ficar engolível. E tantas eram as evidências da razão que o coração aos poucos se rendia, mas a promessa permanecia: existiria um último encontro.

O turbilhão passou. A poeira do cansaço e da dúvida ainda pairava no ar. Mas a criança interior não se contenta com a espera: ela corre atrás e pede o que quer. Fala o que sente, mas só as partes que lhe interessam, pelo medo de acabar perdendo aquilo que tanto esperou conseguir. E foi assim que, mensagem após mensagem, uma data foi marcada.

A expectativa era enorme. Mal conseguia me segurar, continuava falando e pensando sobre aquilo o tempo inteiro. Forçava contato, como se ajudasse a fazer o tempo andar mais rápido. Mas o tempo tem seu ritmo próprio e não tem outra forma de caminhar a não ser no seu passo.

Fim de semana da outra semana. Todo o resto não importava. Num desses dois dias estaria de volta ao paraíso, mesmo que por alguns instantes. Parecia um sonho. E o tempo ajudou.

Chegou o momento. O contato foi feito. O dia amanheceu, a noite caiu. O céu nublou, o sol ressurgiu. O sorriso chegou. O sono bateu. O sonho... Sonho... O olho se abriu. E o último encontro havia acontecido.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A gente chega sozinho...

Neste mês de maio completei exatos 4 anos desde que saí da casa dos meus pais e vim parar nessa cidade chamada Viçosa (mais conhecida pelos estudantes que aqui habitam como 'Viciosa'), localizada numa coordenada geográfica que, se olhasse apenas pelo mapa, seria bem perto de tudo, mas fica tão distante e inacessível que mais me lembra o 'El Dorado'.

Para chegar até aqui, preciso sempre percorrer um longo caminho. De ônibus, quando menos atrasa, demora em torno de 18 horas. Quando dou a sorte de achar promoção de passagem aérea, acabo indo até Belo Horizonte, levando por volta de 7 a 8 horas até avistar o supermercado Bahamas, confirmando que finalmente cheguei.

Para praticamente todos com quem converso, essa viagem parece muito cansativa e dizem que não se submeteriam a isso com a mesma facilidade que eu aparento ter. O que muita gente não sabe é que não é fácil. Não tem um dia que não penso na minha casa perto do litoral, em como lá tem brisa e ruas mais largas, e que é possível ver o céu azul e as estrelas sem fazer muito esforço, porque a verticalização não atingiu o espaço urbano de lá.

A verdade é que a gente chega sozinho aqui. E continua. Cada um de nós, sozinhos nas nossas experiências, nas nossas angústias, nas nossas saudades... Mas também é verdade que chegamos e continuamos sozinhos em momentos de conquista, de comemoração e de pequenos prazeres diários.

É com o tempo que começamos a conhecer e nos aproximar de outras pessoas que também chegaram sozinhas, mas que continuarão sozinhas como cada um de nós. Bem semelhante ao meu longo caminho de ônibus para chegar geograficamente até aqui: vem conhecendo novos lugares que te impressionam com a beleza, a miséria, te deixam entediado olhando pela janela ou que embalam trilhas sonoras e fotografias que ficarão guardadas no coração e na memória - existem rotas a seguir, internas e externas, para conhecer pessoas.

E cada pessoa passa a compartilhar essas rotas conosco, trocando experiências e saberes. Desentendimentos e prazeres. Amores e deveres. Desinteresse. Interesse mútuo.

Cheguei aqui sozinho e perdido. Claro, minha prima veio me ajudar com a mudança. Os amigos da minha mãe me acolheram como se fossem meus pais, tios e tias. Eu estava aqui, acolhido, protegido. Mas perdido e só. Apenas depois que entrei nas rotas é que comecei a me sentir menos perdido, ao mesmo tempo que me senti acompanhado e acompanhando.

Na primeira semana de aula, quando finalmente estava seguro para interagir com outros seres humanos, opinei na conversa de colegas que nunca tinha visto na vida e um deles me disse: "nossa, você fala. Achei que era autista." Foi um golpe brutal em quem já vinha lutando contra um bloqueio para relações pessoais e acabava de se mudar para um novo contexto cultural. Não demorou muito para que fosse possível ver a situação se transformando e, de certa forma, se invertendo.

É uma questão de feeling. A gente realmente chega sozinho, continua sozinho, mas aprende a curtir toda a viagem. Aprende a fazer companhia. A saber quando a gente não quer mais ficar sozinho - ou como faz bem poder compartilhar um pouquinho da nossa existência com o outro. E também sabe a hora de se recolher para aproveitar a própria companhia.

Não dá pra dizer que a viagem de volta para as minhas casas (sim, na Bahia e em Minas) seja a melhor viagem de todas, nem mesmo a que eu consigo descansar mais. Mas ela se tornou muito agradável, tão agradável que nem me preocupo com o tempo. Durmo, leio, dou risada, conheço gente nova, interajo com as crianças... O que for preciso para aproveitar o melhor que aquele momento pode me proporcionar. O momento do incômodo vem sempre antes de começar (às vezes uma semana antes). Mas é só embarcar pra logo pegar a onda. Sem olhar para trás. Só curtindo a viagem.


Logo mais é hora de andar de novo.
A ansiedade já bateu aqui.
Espero conseguir arrumar as malas
e que eu possa me despedir.

É longa essa viagem
mas é o que temos a seguir.
Se não nos virmos, um até breve.
Se der saudade, tô por aí!

*Uma poesia do Saulo para fechar:

A saudade, o amor e o sorriso
O abraço, o infinito e a surpresa
O pé, a pausa e a porta
A ponte, o tempo e a pressa
A gratidão, o mar e o profundo
O pássaro, a flor e o eterno
A reza, o sim e a sorte
A beleza, o canto, e a cura
O velho, o espírito e a voz
A música, o servo e o instrumento
O vento, a direção e o encontro
A árvore, o livre e o chão
A folha, o barulho e a terra
O triz, o fio e o segundo
O instante, a luz e o mistério
O mundo, a menina e a fé
O sereno, a paz e a alma
A vida, a vida e a vida





quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Caminhos e ladrilhos

Escrevi este texto na minha cabeça enquanto caminhava pelo campus mais lindo do mundo, aproveitando cada instante, cada sensação, cada pequena onda que os filhotes de pato faziam na lagoa próxima do meu local favorito daqui, que é por onde passo quando meu coração pede calma e minha alma quer se aconchegar no som do silêncio.

Comecei pouco depois de chegar na árvore que chamo de minha. Ela estava lá, frondosa, mas com menos folhas e galhos do que me lembrava. Prestei atenção nos caminhos que suas raízes faziam e como elas se conectavam com a terra e com as raízes de outras árvores. Como algumas partes delas estavam expostas. E ali, por onde uma delas passava, estava um caminho ladrilhado, no meio do matinho.



Naquele exato momento me lembrei da professora Iacyr falando sobre os caminhos e os ladrilhos. Exatamente aqueles que estavam na minha frente! Ela disse uma vez que os costumes são como os caminhos e que as leis são como os ladrilhos: primeiro a gente abre a passagem por um lugar onde ninguém tinha passado, depois segue passando por lá até que, com o tempo, aquele caminho fica tão comum, tão convencional, que começam a ladrilhar para incentivar que a gente passe por lá, sem precisar abrir outros caminhos.

Mas não adianta: se o caminho ladrilhado deixar de ser tão eficiente quanto andar livremente em outra direção para chegar naquele mesmo lugar, logo outros caminhos serão abertos (e alguém vai mandar ladrilhar - não é a toa aquela musiquinha de ninar).

O que importa aqui é a metáfora do caminho e dos ladrilhos: o caminho vem antes e não necessariamente se pensa quando ele está sendo feito. A GENTE VAI. Passa por cima da grama, das raízes, tem gente que sobe nas árvores e que até escala montanhas. Já pensou naquela galera que explorou pela primeira vez a incrível arte de fazer pontes? Essa galera teve que atravessar lagoa, rio, mar, precipício, enfim, teve que dar um jeito de fazer o caminho, ver o que tinha do outro lado e depois disso inventou de ladrilhar.

Então primeiro a gente vai. Primeiro bota o pé no chão. A gente sente a terra, sente tudo que tem que sentir. Experimenta a sensação alucinante de desbravar algo, de quebrar regras, de passar por fora do caminho ladrilhado pelos outros. É a liberdade que não se compra, mas se paga caro pra manter. Todos os dias.

Com o tempo a gente pode até ladrilhar os nossos próprios caminhos do jeito que quiser. Vai que dá vontade de passar por ali de bicicleta ou de skate? É ao gosto do chef. Mas não se pode alienar seu direito (um grande poder/dever) de abrir e cuidar dos caminhos por onde vai passar. De fazer suas raízes se espalharem, se exporem e se conectarem para que possa crescer como a minha árvore. Para que tenha sempre, por onde quer que ande, aquela sensação de lar. Nem que precise quebrar alguns ladrilhos para isso.




Retificando uma informação: a professora Iacyr me pediu para acrescentar que não foi ela quem comparou os caminhos e ladrilhos da UFV com os costumes e as leis, mas sim o Professor José Dionisio Ladeira, do Departamento de Letras. Ela apenas nos apresentou tal comparação em uma de suas aulas.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Mais elegantes no frio

Acabou o verão. De uma vez, todas as minhas "ites" vieram com o cair das folhas e da temperatura. Não consigo mais usar roupas leves e curtas. Dificilmente tenho condições de correr, algo que eu amo tanto. Minhas caminhadas vespertinas e noturnas também terão de esperar um pouco. Me sinto estagnando, enclausurado em casa e todo dolorido. E ainda nem é inverno. Ó céus.




Toda vez que tenho oportunidade falo bem alto "EU ODEIO FRIO!", e, não mais que de repente, sou repreendido por alguém que fala "tá louco? Eu amo frio!". Em seguida, fala como o frio é bom para que as pessoas possam se vestir com várias camadas de roupa (lindas, por sinal), se olharem no espelho e se sentirem elegantes, mais bonitas e arrumadas, sem o incômodo suor que borra a maquiagem ou deixa manchas (a famosa "pizza" debaixo dos braços já não aparece tanto).

Falam também do vinho e da diminuição da fadiga, dos dias de chuva e das cobertas. Das séries. Dos livros. Dos filmes. Das comidas e bebidas mais quentes, que, por sinal, aquecem o corpo. O corpo precisa ser aquecido no frio para que não fiquemos doentes. O frio é legal para essas pessoas. Ele me dói, mas parece que o que deveria importar para mim é que o frio me possibilita ficar mais elegante, mais culto. E só.

Ok. Tem gente que gosta de se vestir com mais roupas ou tons mais escuros e no calor talvez não seja confortável de fazê-lo. Tem gente que gosta do vinho e de dormir com cobertor, então o frio seria mais propício de aproveitar esses pequenos prazeres.

Mas por que mesmo que "as pessoas ficam mais elegantes no frio"? Será que é porque elas fazem coisas que gostam de fazer? Será que é porque podem fazer coisas historicamente tidas como "cultas" (e europeias) nesse nosso 'país tropical abençoado por Deus'? Ou será que o frio tem refletido o que tem sido cultivado na nossa sociedade: camadas de aparência colocadas sobre um corpo frio que precisa de afeto e movimento para se aquecer?

Parece que fiz um longo salto lógico aqui, mas é importante fazê-lo. Quando eu digo que odeio o frio, me refiro a vários tipos de frio. Inclusive o físico, que me desperta dores também físicas (nas juntas, nos músculos, nos seios da face...), mas também me refiro ao frio interior. Gente fria. No máximo simpática, que corta a gente quando queremos uma conexão de verdade, troca de calor, de vivência. Gente que usa camadas e camadas de aparência para aquecer um corpo frio de forma artificial.

Eu gosto bastante da ideia do meio termo (mais para o calor, por óbvio), tanto que minha estação favorita é a primavera. Acredito muito nos ciclos e na necessidade deles para que a vida se desenvolva, mas é na primavera que os animais voltam para a superfície, acordam do estágio de hibernação (quando não precisam mais se abrigar do frio exterior) e voltam a interagir entre si naturalmente.

E não há nada de errado em gostar desse meio termo. Não é preciso definir uma luta entre calor e frio em extremos, até porque ambos são fatores subjetivos da experiência. Há momentos em que estamos mais afim de hibernar, ficarmos a sós, introspecção. Há outros em que ficamos dispostos a "botar a cara no sol", sair e interagir. E tudo bem com isso. São ciclos autênticos mesmo.

Olha só, se você gosta de um tempinho mais frio eu te compreendo, ok? Inclusive eu já li que a melhor forma de se aquecer no frio é contato entre peles. Sim, dois corpos quentinhos juntinhos, Nuzinhos da Silva, são melhores até que aquele casacão que protegeria um só. Isso também se aplica às nossas relações.

Cá entre nós, prefiro correr pelado (ou quase isso) do que ficar travado com um monte de roupa que limita meus movimentos, até mesmo de dar ou sentir um abraço. A elegância, pra mim, está estampada no corpo: nos olhos, nos lábios e nos gestos.