terça-feira, 23 de maio de 2017

Mais elegantes no frio

Acabou o verão. De uma vez, todas as minhas "ites" vieram com o cair das folhas e da temperatura. Não consigo mais usar roupas leves e curtas. Dificilmente tenho condições de correr, algo que eu amo tanto. Minhas caminhadas vespertinas e noturnas também terão de esperar um pouco. Me sinto estagnando, enclausurado em casa e todo dolorido. E ainda nem é inverno. Ó céus.




Toda vez que tenho oportunidade falo bem alto "EU ODEIO FRIO!", e, não mais que de repente, sou repreendido por alguém que fala "tá louco? Eu amo frio!". Em seguida, fala como o frio é bom para que as pessoas possam se vestir com várias camadas de roupa (lindas, por sinal), se olharem no espelho e se sentirem elegantes, mais bonitas e arrumadas, sem o incômodo suor que borra a maquiagem ou deixa manchas (a famosa "pizza" debaixo dos braços já não aparece tanto).

Falam também do vinho e da diminuição da fadiga, dos dias de chuva e das cobertas. Das séries. Dos livros. Dos filmes. Das comidas e bebidas mais quentes, que, por sinal, aquecem o corpo. O corpo precisa ser aquecido no frio para que não fiquemos doentes. O frio é legal para essas pessoas. Ele me dói, mas parece que o que deveria importar para mim é que o frio me possibilita ficar mais elegante, mais culto. E só.

Ok. Tem gente que gosta de se vestir com mais roupas ou tons mais escuros e no calor talvez não seja confortável de fazê-lo. Tem gente que gosta do vinho e de dormir com cobertor, então o frio seria mais propício de aproveitar esses pequenos prazeres.

Mas por que mesmo que "as pessoas ficam mais elegantes no frio"? Será que é porque elas fazem coisas que gostam de fazer? Será que é porque podem fazer coisas historicamente tidas como "cultas" (e europeias) nesse nosso 'país tropical abençoado por Deus'? Ou será que o frio tem refletido o que tem sido cultivado na nossa sociedade: camadas de aparência colocadas sobre um corpo frio que precisa de afeto e movimento para se aquecer?

Parece que fiz um longo salto lógico aqui, mas é importante fazê-lo. Quando eu digo que odeio o frio, me refiro a vários tipos de frio. Inclusive o físico, que me desperta dores também físicas (nas juntas, nos músculos, nos seios da face...), mas também me refiro ao frio interior. Gente fria. No máximo simpática, que corta a gente quando queremos uma conexão de verdade, troca de calor, de vivência. Gente que usa camadas e camadas de aparência para aquecer um corpo frio de forma artificial.

Eu gosto bastante da ideia do meio termo (mais para o calor, por óbvio), tanto que minha estação favorita é a primavera. Acredito muito nos ciclos e na necessidade deles para que a vida se desenvolva, mas é na primavera que os animais voltam para a superfície, acordam do estágio de hibernação (quando não precisam mais se abrigar do frio exterior) e voltam a interagir entre si naturalmente.

E não há nada de errado em gostar desse meio termo. Não é preciso definir uma luta entre calor e frio em extremos, até porque ambos são fatores subjetivos da experiência. Há momentos em que estamos mais afim de hibernar, ficarmos a sós, introspecção. Há outros em que ficamos dispostos a "botar a cara no sol", sair e interagir. E tudo bem com isso. São ciclos autênticos mesmo.

Olha só, se você gosta de um tempinho mais frio eu te compreendo, ok? Inclusive eu já li que a melhor forma de se aquecer no frio é contato entre peles. Sim, dois corpos quentinhos juntinhos, Nuzinhos da Silva, são melhores até que aquele casacão que protegeria um só. Isso também se aplica às nossas relações.

Cá entre nós, prefiro correr pelado (ou quase isso) do que ficar travado com um monte de roupa que limita meus movimentos, até mesmo de dar ou sentir um abraço. A elegância, pra mim, está estampada no corpo: nos olhos, nos lábios e nos gestos.



domingo, 16 de abril de 2017

Cheirinho de praia



Era sábado a tarde. Bruno se preparava para mais uma semana que viria com tudo. O sábado é o dia que ele tira para ficar a toa e fazer tudo aquilo que vier na cabeça de repente, não mais que de repente. Os sábados de Bruno são muito atípicos e ele gosta disso: ninguém, nem mesmo ele, prevê o que será desse dia incrível, quando a sua imaginação e motivação estão no ápice.

Já tinha resolvido algumas questões que estavam perturbando a mente dele e de gente próxima, foi na rua procurar um lugar para cortar os cabelos, mas não conseguiu achar nada aberto, porque naquele sábado especificamente as coisas estavam fechando pela manhã ou simplesmente as pessoas decidiram não ir trabalhar, pois na sexta havia sido feriado. Ele foi almoçar, mas o lugar onde ele queria comer também não estava aberto, então deu meia volta e foi no segundo lugar onde queria ir e seu dinheiro podia pagar.

Ao voltar para casa, Bruno resolveu cuidar de si. Tinha algumas pequenas feridas para tratar, resolveu mexer nos cabelos por conta própria - só não iria cortá-los porque as experiências passadas dessa natureza não foram bem sucedidas - e dar um jeito na pilha de coisas que estavam fora do lugar. Tudo isso lhe veio na cabeça não mais que de repente.

Mas foi enquanto ele cuidava do seu rosto que lhe veio uma doce lembrança: ao abrir o protetor solar, Bruno sentiu o cheirinho de praia que ele tanto gosta. Sabe como é o cheiro de praia? Um cheiro bem gostoso e aconchegante, que lembra um calor confortável, a água do mar, a areia, toda a diversão e atmosfera que só se conhece na praia.

Sentir o cheiro de praia daquele protetor solar fez com que ele entrasse numa experiência só dele, cheio de lembranças gostosas e sensações que o faziam estremecer por toda a espinha, começando de cima para baixo, tomando conta do seu corpo. Naquele exato momento, Bruno já não estava mais dentro do seu apartamento.

Ele já estava se imaginando correndo, o corpo se bronzeando, coberto de água, sal e suor. As cores que vinham a sua mente eram o amarelo do Sol, dos sombreiros e das mesas e cadeiras, o azul do céu misturado com o azul esverdeado do mar, que se juntava ao branco da espuma das ondas e ao tom quase bege da areia da praia, além de alguns pontos verdes que o faziam lembrar dos cocos e das árvores do litoral. A cena veio à sua mente muito rápido e o prazer tomou conta da sua existência naquele pequeno instante. Bruno se sentia ainda mais em casa agora. Não demorou muito, já tinha passado aquele protetor pelo corpo como se vestisse a sua melhor roupa ou tomasse um banho do seu melhor perfume.

Era ainda de tarde, ele tinha muitas outras possibilidades e encontros para aquele dia, mas foi aquele instante que fez valer todo o seu dia. Ele saiu de casa confiante de que aquele cheiro conquistaria a todos que encontrasse dali em diante e que tudo estava maravilhoso, porque, por um instante, Bruno esteve no seu mais singelo paraíso. E, uma vez no paraíso, tudo se torna divino.

Foi assim que ele entendeu que o divino não é nada extravagante, mas tem cheirinho de praia e mora dentro dele, só precisava se lembrar disso.

(Este caso não acaba aqui. Há algum tempo eu comecei a escrever um pequeno livro chamado "Em Dias de Cão", contando a história do Bruno e as reviravoltas de um momento da sua vida. Vou continuar escrevendo e compartilhando com vocês partes aleatórias por aqui. Não se assustem caso não faça muito sentido :D)


domingo, 2 de abril de 2017

Carta do filho pródigo



Irmãos e irmãs. Meu pai.

É a primeira vez que escrevo desde que parti. Não faz muito tempo, pedi tudo que era meu por direito e resolvi andar com minhas próprias pernas e ver o mundo através dos meus próprios olhos. Quis ir além dos muros do palácio onde vivia, pois acreditava que eles apenas me serviam como prisão, como verdadeiras cercas por onde a luz e as outras cores não poderiam me alcançar.

Acreditava que todo o afeto que eu havia nutrido por tanto tempo ali dentro, naquele lar cheio de amor, acabaria por me sufocar e era preciso sair para respirar e compartilhar um pouco com aqueles que estavam do lado de fora e viviam ao ar livre. Eu acreditei que estar ao ar livre era liberdade, e que, quem ali estava, também seria livre e viveria do amor. Doce e pura foi a minha ilusão.

Nas primeiras milhas da minha jornada já comecei a sentir as dificuldades de se estar caminhando pelo deserto, agora solitário, mas ainda com recursos. O sol brilhava forte pelas manhãs, o seu calor dilatava meus poros e a sede me consumia sempre que meu corpo se expunha em várias de suas partes. Não bastava então a água. Era preciso algo além. Sais e outras espécies de bebidas me divertiam e faziam esquecer que, naquele deserto, os oásis não passavam de miragens.

Os "amigos" e conhecidos se agrupavam ao meu redor e, pela primeira vez, me via dentro de um ciclo social, é verdade, fora daquilo que me era familiar. Era divertido, libertinoso, mas ainda assim não me senti livre. Rapidamente os recursos foram se esgotando e as minhas burrices se tornaram cada vez mais danosas. E os "amigos" já não eram nem mais conhecidos.

Fui parar na lama, vivendo com os porcos, e nem do alimento deles eu podia comer. Nem mesmo os porcos queriam olhar no meu rosto, pois estavam mais preocupados com a lama que jogavam uns nos outros e aonde rolavam. Era ali o meu fundo do poço.

Pensei tanto na casa de meu pai, no vento que batia nas minhas vestes limpas, no calor aconchegante do abraço dos meus irmãos e irmãs, amigos e amigas que trabalhavam em nossas terras, que viviam na fartura e abundância, nutrindo o amor, mesmo quando havia uma ou outra intriga. Nunca lhes faltou alegria enquanto estavam ali partilhando os frutos daquilo que plantavam.

Foi assim que resolvi escrever essa carta.

Aos meus irmãos e irmãs, quero pedir perdão pela minha ousadia e arrogância. Peço que compreendam que eu era (e ainda sou) inexperiente nas matérias da vida, por isso resolvi correr, mesmo pisando em falso, pois a sede por aprender a caminhar era grande e as distâncias pareciam infinitas.

Aos meus amigos e amigas, peço perdão por desdenhar do que tinha. Não quero com isso dizer que não reconhecia o quão bom era tudo o que me era oferecido, mas sim porque me permiti deixar perder tudo isso por miragens e um sol que cega até o mais lúcido dos homens, que se reflete no desejo, naquilo que não se tem e no que se pode acrescentar, mesmo que lá não haja nada que valha a troca.

Por fim, ao meu pai. Pai, não sei se ainda sou digno de ser chamado teu filho. Mas rogo pelo teu perdão por ter duvidado do seu amor por mim. De minha parte nunca duvidei que te amo, mas não sabia a dimensão desse amor infinitamente maior que o meu. Nunca havia parado para pensar, eu, tão cego pela luz que invadia minha pequena janela vinda do horizonte, que tudo aquilo que me cercava era obra do teu amor por mim.

E, mesmo quando resolvi partir de perto de ti, foi o seu amor que me permitiu fazê-lo, mesmo com o coração apertado. Foi o teu amor que me protegeu de que acontecesse o pior quando você não estivesse mais aqui para me resgatar, nem que fosse na lembrança de que havia um lugar onde tudo era melhor e para onde eu ansiaria retornar. Só pelo teu amor você me permitiu brotar, crescer, desbotar e me recolher de novo, envergonhado, mas não mais perdido.

Pai, o seu amor me permitiu aprender esse ciclo. Me permitiu conhecer as estações. O que te peço agora é que me acolha de volta em seu terreno fértil, no seu jardim de amor. Já não tenho mais fome da lavagem que nem mesmo me permitiram comer. Já não tenho sede das águas daqueles oásis ricos que as miragens me faziam ver. A minha fome, pai, é de verdade e a minha sede é desse amor.

Eu estou de volta, pai. E daqui já posso ver a sua casa. Mal posso esperar pra te ver novamente.

Um grande abraço.

Daquele que te ama desde antes de nascer.


sábado, 11 de março de 2017

Limpeza

Depois de uma farra das mais estranhas dentre as que já me meti, só queria duas coisas: uma cura para a ressaca e uma faxina mágica na minha casa. Mas como é mesmo que eu fui parar ali?



Estava tão empolgado com tudo que vinha dando certo até agora que resolvi comemorar. Era muito bacana a ideia de sair e celebrar com um amigo esse momento tão fantástico que eu estava vivendo. O esquenta começou em casa mesmo. Não demorou muito pra que já estivesse embriagado e fazendo besteiras. Mas até aí tudo bem, dentro de casa era tranquilo.

 Foi então que estava suficientemente tonto ao ponto de ser corajoso e sair. Fizemos isso numa velocidade espantosa e, de repente, parecia que eu tinha entrado de penetra numa festa trash. De início, ainda empolgado com a coragem que tinha conseguido com aquele porre inicial, parecia tudo novo e cheio de opções. Mas logo mais a onda foi acabando, a grana foi junto e com tudo isso a graça também. Era, definitivamente, um filme de terror fantasiado de American Pie. Uma obra de péssimo gosto, mas que, pelo nível de entusiasmo anterior, não passou pelo crivo da criticidade e foi direto para a aprovação do otimismo.

Não demorou muito para acabar me perdendo do tal do amigo, ou vice-versa, não me lembro. Só sei que nesse ponto precisava de ajuda. De preferência para ir embora. Mas, como é comum nos filmes de terror, o personagem fica preso na trama até findar o clímax. E como o script era bem trash a coisa foi se tornando cada vez mais ridícula e já estava me apresentando como um personagem imbecil que merece morrer. Ainda bem que não gosto de filmes de terror, nem de beber, muito menos de festas trash.

Na primeira oportunidade que me apareceu saí correndo sem nem me preocupar com a comanda. Isso até me deu uma dor de cabeça bem pesada por algum tempo, mas precisava de ar puro. E como precisava! Pouco antes de dar o fora daquela festa e voltar para casa deu para perceber que a minha ressaca não era simplesmente alcoólica, mas tinha algo mais na bebida. Não demorou muito pra perceber que alguém havia forçado uma intoxicação em mim e que não era um amigo aquele que participou do esquenta comigo. E pior: minha comanda apareceu com outros valores que não reconhecia (até porque não gostava daquilo que estavam cobrando ali, então não teria comprado nem se estivesse bêbado) e as mensagens de cobrança não paravam de aparecer.

Tudo resolvido, acho que é melhor dar um jeito na minha ressaca aos poucos. Pelo menos não entrei em coma alcoólico ou dei perda total, não é mesmo? E preciso urgentemente limpar minha casa. Talvez eu peça ajuda. Parece que alguns bichos indesejados andaram fazendo a farra enquanto eu estive ausente de mim e talvez eu até tenha colaborado (risos). Não deve demorar muito. Minha casa é pequena, mas sempre foi aconchegante, fácil de limpar, afinal de contas, não costumo acumular tranqueiras. É uma excelente hora para jogar água em tudo e tirar além do grosso. Limpeza profunda. Tudo brilhando como novo.


terça-feira, 7 de março de 2017

Lua em câncer

Faz mais um ano desde que você partiu, mas eu ainda sigo os poucos rastros que fiz questão de guardar comigo. Seria esse o momento de deixar que se vá?



Já é quase a virada da madrugada, quando não se sabe em que dia estamos. O fato de ser tarde se junta ao momento de estar só e faz lembrar daquilo que foi, que poderia ser. Do lado de fora, barulhos estranhos espantam o que talvez fosse tristeza, mas que na verdade é plena saudade. Momentos que não vão voltar, porque agora não há mais aquele caminho para trilhar. Juliet finalmente se foi e junto com ela os cacos que quebrou do meu coração, agora remendado e que aos poucos cicatrizou até a última fenda, tornando-se um pouco mais rústico, porém bem mais sensível e maleável, abrindo-se para as sensações que nele quisessem entrar.

Não tenho mais o que falar sobre Juliet. Nem sei mais quem é. Não tenho noção de como se parece agora. Mas o bom sentimento que fora nutrido permanece. E foi assim que superei. 

Depois de Juliet vários foram os nomes, rostos e formas. Cada uma em sua intensidade e gostos. Uma diversidade linda, plena e verdadeira, com confidências exclusivas, especiais, mas sem qualquer exclusividade. Aprendi que era preciso aprender com Juliet e explorar a liberdade, não me prender a situações e buscar conexões que fizessem sentido. Que não era interessante me perder enquanto me perdia em alguém. É preciso presença. É preciso tato. É preciso saber que se é alguém e que, junto de si, há outro alguém.

Hoje estou só. Desesperado. Buscando esse contato. Mas não quer dizer que não me sinta bem estando comigo, é só a lua em câncer. Me deu muita vontade de poder compartilhar um pouco do meu mundo e poder ter o mundo do outro compartilhado comigo. Um momento de sinergia e um poço de sensações bem profundas. É o momento de interiorizar e, se possível, trocar afeto. Para que ninguém tenha que enfrentar seus demônios sozinhos. 

Eu estou só e com saudades, então o tato é o sentido do momento. Pode ser um olhar também. Mas as paredes brancas não o podem fazê-lo.