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Cargas desnecessárias

Alguma vez já abriu a sua mochila ou bolsa e percebeu que tinha um monte de tranqueira que você não utilizaria naquele momento, mas que mesmo assim você carrega consigo porque "pode ser que eu precise"? Será que já aconteceu de você se arrepender de ter carregado aquele peso todo por nada depois de um tempão fazendo um esforço a mais para isso? Eu já. Dói as costas e machuca os ombros. E aquilo fica martelando na cabeça até você conseguir se livrar daquilo (e se perdoar por ter carregado aquele monte de entulho por tanto tempo, sendo que não faz sentido algum).

Durante o final de semana, fui tirar fotos de uma amiga e carreguei minha mochila cheia de coisas. Tinha de tudo: toalha, caderno, protetor solar (que abriu e fez lambança), dois óculos, fones de ouvido, agenda, estojo, entre outras mil coisas que eu poderia listar, mas que não fazem a diferença. Cheguei lá e coloquei minha mochila na cadeira enquanto nos preparávamos para sair. Quando estávamos partindo, coloquei a mochila nas costas, no automático. Minha amiga questionou, meio que de rompante, o que eu estava pensando que ia fazer carregando aquilo. Realmente, não tinha pensado como era desnecessário. Naquele momento eu precisava apenas dos meus óculos, da câmera e talvez um boné para me proteger do sol forte. No fim das contas, o que eu precisava mesmo era só da câmera e de confiar nas minhas habilidades.

Dessa história deu para refletir um tanto. Imagina a quantidade de coisas, ideias que a gente carrega na nossa cabeça, sentimentos guardados no coração, tudo entulhado nas nossas vidas e que, na maioria das vezes, não fazem sentido para o momento, para a relação ou pra existência como um todo. Sem viajar muito, o que eu quero dizer é que parece que tudo tem recebido tanto peso extra, nada pode ser o que simplesmente se diz ser. Se a pessoa diz que é rica, que é gay, evangélica ou até que é contra o impeachment, logo em seguida desses adjetivos vem uma enxurrada de outros adjetivos ou probabilidades que constroem um imaginário em relação àquela pessoa, que pode muito bem não ter nada a ver com ela ou com sua história. Isso não é saudável. Isso é colocar, em si e no outro, um peso extra na consciência. A pessoa quer se identificar como X e fim. Se identificar como X não quer dizer que por causa disso ela também é Y, Z, G, H, P ou D. Nem que é contra essas outras letras.

Da mesma forma, se eu digo que não sou gay, rico, que não voto na Dilma ou algo assim, não quer dizer que eu seja exatamente hétero, pobre, voto no Aécio (ou Bolsonaro), etc. Me deixem ser e não ser, gente. E sem criar caso com isso. A rotularização pode até ser importante de um ponto de vista político para a conquista de direitos de grupos com caracteres semelhantes, mas é cruel com quem não quer carregar mais um peso para sua existência, de ter que definir a vida por letras e lugares comuns.

Se alguém te diz que é ou não é X, por favor, não assuma que essa pessoa é qualquer outra coisa além de ser ou não X. Fazer o exercício de se livrar das associações é muito bom, tanto para o seu interlocutor quanto para si, pois retira o peso desnecessário de ser ou ver no outro algo que pode não existir. E se por ventura existir, vai ser mais fácil de lidar sem ter que fazer associações. Uma coisa de cada vez. Um adjetivo por turno. Uma pessoa que não tem nada a ver com a outra. Casos distintos, fardos diferentes. Não vivemos em preto e branco, mas em várias frequências de ondas, sejam em escala de cinza ou em cores vivas. É isso.


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