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Carta do filho pródigo



Irmãos e irmãs. Meu pai.

É a primeira vez que escrevo desde que parti. Não faz muito tempo, pedi tudo que era meu por direito e resolvi andar com minhas próprias pernas e ver o mundo através dos meus próprios olhos. Quis ir além dos muros do palácio onde vivia, pois acreditava que eles apenas me serviam como prisão, como verdadeiras cercas por onde a luz e as outras cores não poderiam me alcançar.

Acreditava que todo o afeto que eu havia nutrido por tanto tempo ali dentro, naquele lar cheio de amor, acabaria por me sufocar e era preciso sair para respirar e compartilhar um pouco com aqueles que estavam do lado de fora e viviam ao ar livre. Eu acreditei que estar ao ar livre era liberdade, e que, quem ali estava, também seria livre e viveria do amor. Doce e pura foi a minha ilusão.

Nas primeiras milhas da minha jornada já comecei a sentir as dificuldades de se estar caminhando pelo deserto, agora solitário, mas ainda com recursos. O sol brilhava forte pelas manhãs, o seu calor dilatava meus poros e a sede me consumia sempre que meu corpo se expunha em várias de suas partes. Não bastava então a água. Era preciso algo além. Sais e outras espécies de bebidas me divertiam e faziam esquecer que, naquele deserto, os oásis não passavam de miragens.

Os "amigos" e conhecidos se agrupavam ao meu redor e, pela primeira vez, me via dentro de um ciclo social, é verdade, fora daquilo que me era familiar. Era divertido, libertinoso, mas ainda assim não me senti livre. Rapidamente os recursos foram se esgotando e as minhas burrices se tornaram cada vez mais danosas. E os "amigos" já não eram nem mais conhecidos.

Fui parar na lama, vivendo com os porcos, e nem do alimento deles eu podia comer. Nem mesmo os porcos queriam olhar no meu rosto, pois estavam mais preocupados com a lama que jogavam uns nos outros e aonde rolavam. Era ali o meu fundo do poço.

Pensei tanto na casa de meu pai, no vento que batia nas minhas vestes limpas, no calor aconchegante do abraço dos meus irmãos e irmãs, amigos e amigas que trabalhavam em nossas terras, que viviam na fartura e abundância, nutrindo o amor, mesmo quando havia uma ou outra intriga. Nunca lhes faltou alegria enquanto estavam ali partilhando os frutos daquilo que plantavam.

Foi assim que resolvi escrever essa carta.

Aos meus irmãos e irmãs, quero pedir perdão pela minha ousadia e arrogância. Peço que compreendam que eu era (e ainda sou) inexperiente nas matérias da vida, por isso resolvi correr, mesmo pisando em falso, pois a sede por aprender a caminhar era grande e as distâncias pareciam infinitas.

Aos meus amigos e amigas, peço perdão por desdenhar do que tinha. Não quero com isso dizer que não reconhecia o quão bom era tudo o que me era oferecido, mas sim porque me permiti deixar perder tudo isso por miragens e um sol que cega até o mais lúcido dos homens, que se reflete no desejo, naquilo que não se tem e no que se pode acrescentar, mesmo que lá não haja nada que valha a troca.

Por fim, ao meu pai. Pai, não sei se ainda sou digno de ser chamado teu filho. Mas rogo pelo teu perdão por ter duvidado do seu amor por mim. De minha parte nunca duvidei que te amo, mas não sabia a dimensão desse amor infinitamente maior que o meu. Nunca havia parado para pensar, eu, tão cego pela luz que invadia minha pequena janela vinda do horizonte, que tudo aquilo que me cercava era obra do teu amor por mim.

E, mesmo quando resolvi partir de perto de ti, foi o seu amor que me permitiu fazê-lo, mesmo com o coração apertado. Foi o teu amor que me protegeu de que acontecesse o pior quando você não estivesse mais aqui para me resgatar, nem que fosse na lembrança de que havia um lugar onde tudo era melhor e para onde eu ansiaria retornar. Só pelo teu amor você me permitiu brotar, crescer, desbotar e me recolher de novo, envergonhado, mas não mais perdido.

Pai, o seu amor me permitiu aprender esse ciclo. Me permitiu conhecer as estações. O que te peço agora é que me acolha de volta em seu terreno fértil, no seu jardim de amor. Já não tenho mais fome da lavagem que nem mesmo me permitiram comer. Já não tenho sede das águas daqueles oásis ricos que as miragens me faziam ver. A minha fome, pai, é de verdade e a minha sede é desse amor.

Eu estou de volta, pai. E daqui já posso ver a sua casa. Mal posso esperar pra te ver novamente.

Um grande abraço.

Daquele que te ama desde antes de nascer.


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