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Parede na sala de estar

É um ditado popular: "se as paredes falassem...". E nada mais é dito. Assim como as paredes não falam, não se fala mais nisso. Os assuntos cessam quando os ditados entram. As paredes estão cheias de histórias, mas muros e murais estão entupidos de ditados.

A parede da minha sala de estar já ouviu e viu mais momentos de amor, de afeto, de sentimentos em rompante e de dores desconfortantes do que muros e murais jamais poderiam anunciar com tamanha verdade. É uma sala de estar. No inglês, também seria uma sala de ser. Combinação linda que é o verbo "to be", não é mesmo? E a sala se tornaria uma "living room". As paredes teriam vida também, já que a vida não conhece barreiras, nem mesmo na morte.

Os muros e murais de alguém estão aí para garantir proteção. Muros e murais virtuais servem para a mesma coisa. As mensagens estampadas neles servem apenas para o lado externo. Grande parte das vezes não foram as pessoas que construíram essas barreiras que colocaram essas mensagens por lá. Às vezes apenas alguém passou por ali para vandalizar ou para tentar dar um toque mais artístico no que até então só servia para proteger contra o que vem de fora.

As paredes não são assim. Paredes compartimentam cômodos e convivem diretamente com a vida da casa e de quem nela habita. Se uma parede for pintada, rabiscada, ficar suja ou receber um quadro, de dentro pra fora ou de fora para dentro, ela está ali para isso. Paredes podem até proteger, mas foram feitas para sustentar e compartimentar cômodos e dar abrigo a quem procura um lar. Paredes têm marcas de vida e de afeto. Muros e murais costumam servir apenas como medidas de afastamento e segurança, sendo algumas vezes decorados do lado de fora para dar um charme, quando se tem recursos para isso.

Muros e murais podem ser substituídos por grades. Se isso for feito, pouco se diferencia de seu sentido de prisão, exceto pelo fato de que se pode ver um pouco mais do que há lá dentro. Algumas paredes, por outro lado, possuem portas e janelas. O sol e o ar podem entrar por elas, assim como pessoas, bichos e a chuva, que inspiram sensações mais complexas do que medo, segurança ou curiosidade.

Se as paredes falassem, provavelmente não se limitariam aos ditados. Não se limitariam a frases de efeito porque vivem e sabem, por dentro e por fora, mais do que isso. Paredes não vêm no singular. Elas estão juntas porque assim podem acolher. Porque muros e murais, sozinhos, coitados, não sustentam nem um teto.

As paredes podem até ser mudas, mas é dentro delas que estamos vivendo. Às vezes elas até deixam escapar alguma coisinha para os nossos vizinhos. Muros e murais são dispensáveis se suas paredes forem de lugar de estar. De ser. E de viver. Eu adentrei a sua casa. Você adentrou a minha. Dispenso seus muros e seus murais frondosos. Prefiro as minhas paredes sujinhas e fresquinhas.




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