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Mais elegantes no frio

Acabou o verão. De uma vez, todas as minhas "ites" vieram com o cair das folhas e da temperatura. Não consigo mais usar roupas leves e curtas. Dificilmente tenho condições de correr, algo que eu amo tanto. Minhas caminhadas vespertinas e noturnas também terão de esperar um pouco. Me sinto estagnando, enclausurado em casa e todo dolorido. E ainda nem é inverno. Ó céus. Toda vez que tenho oportunidade falo bem alto "EU ODEIO FRIO!", e, não mais que de repente, sou repreendido por alguém que fala "tá louco? Eu amo frio!". Em seguida, fala como o frio é bom para que as pessoas possam se vestir com várias camadas de roupa (lindas, por sinal), se olharem no espelho e se sentirem elegantes, mais bonitas e arrumadas, sem o incômodo suor que borra a maquiagem ou deixa manchas (a famosa "pizza" debaixo dos braços já não aparece tanto). Falam também do vinho e da diminuição da fadiga, dos dias de chuva e das cobertas. Das séries. Dos livros. Do...

Cheirinho de praia

Era sábado a tarde. Bruno se preparava para mais uma semana que viria com tudo. O sábado é o dia que ele tira para ficar a toa e fazer tudo aquilo que vier na cabeça de repente, não mais que de repente. Os sábados de Bruno são muito atípicos e ele gosta disso: ninguém, nem mesmo ele, prevê o que será desse dia incrível, quando a sua imaginação e motivação estão no ápice. Já tinha resolvido algumas questões que estavam perturbando a mente dele e de gente próxima, foi na rua procurar um lugar para cortar os cabelos, mas não conseguiu achar nada aberto, porque naquele sábado especificamente as coisas estavam fechando pela manhã ou simplesmente as pessoas decidiram não ir trabalhar, pois na sexta havia sido feriado. Ele foi almoçar, mas o lugar onde ele queria comer também não estava aberto, então deu meia volta e foi no segundo lugar onde queria ir e seu dinheiro podia pagar. Ao voltar para casa, Bruno resolveu cuidar de si. Tinha algumas pequenas feridas para tratar, resolve...

Carta do filho pródigo

Irmãos e irmãs. Meu pai. É a primeira vez que escrevo desde que parti. Não faz muito tempo, pedi tudo que era meu por direito e resolvi andar com minhas próprias pernas e ver o mundo através dos meus próprios olhos. Quis ir além dos muros do palácio onde vivia, pois acreditava que eles apenas me serviam como prisão, como verdadeiras cercas por onde a luz e as outras cores não poderiam me alcançar. Acreditava que todo o afeto que eu havia nutrido por tanto tempo ali dentro, naquele lar cheio de amor, acabaria por me sufocar e era preciso sair para respirar e compartilhar um pouco com aqueles que estavam do lado de fora e viviam ao ar livre. Eu acreditei que estar ao ar livre era liberdade, e que, quem ali estava, também seria livre e viveria do amor. Doce e pura foi a minha ilusão. Nas primeiras milhas da minha jornada já comecei a sentir as dificuldades de se estar caminhando pelo deserto, agora solitário, mas ainda com recursos. O sol brilhava forte pelas manhãs, o se...

Limpeza

Depois de uma farra das mais estranhas dentre as que já me meti, só queria duas coisas: uma cura para a ressaca e uma faxina mágica na minha casa. Mas como é mesmo que eu fui parar ali?   Estava tão empolgado com tudo que vinha dando certo até agora que resolvi comemorar. Era muito bacana a ideia de sair e celebrar com um amigo esse momento tão fantástico que eu estava vivendo. O esquenta começou em casa mesmo. Não demorou muito pra que já estivesse embriagado e fazendo besteiras. Mas até aí tudo bem, dentro de casa era tranquilo.  Foi então que estava suficientemente tonto ao ponto de ser corajoso e sair. Fizemos isso numa velocidade espantosa e, de repente, parecia que eu tinha entrado de penetra numa festa trash. De início, ainda empolgado com a coragem que tinha conseguido com aquele porre inicial, parecia tudo novo e cheio de opções. Mas logo mais a onda foi acabando, a grana foi junto e com tudo isso a graça também. Era, definitivamente, um filme de terr...

Lua em câncer

Faz mais um ano desde que você partiu, mas eu ainda sigo os poucos rastros que fiz questão de guardar comigo. Seria esse o momento de deixar que se vá? Já é quase a virada da madrugada, quando não se sabe em que dia estamos. O fato de ser tarde se junta ao momento de estar só e faz lembrar daquilo que foi, que poderia ser. Do lado de fora, barulhos estranhos espantam o que talvez fosse tristeza, mas que na verdade é plena saudade. Momentos que não vão voltar, porque agora não há mais aquele caminho para trilhar. Juliet finalmente se foi e junto com ela os cacos que quebrou do meu coração, agora remendado e que aos poucos cicatrizou até a última fenda, tornando-se um pouco mais rústico, porém bem mais sensível e maleável, abrindo-se para as sensações que nele quisessem entrar. Não tenho mais o que falar sobre Juliet. Nem sei mais quem é. Não tenho noção de como se parece agora. Mas o bom sentimento que fora nutrido permanece. E foi assim que superei.  Depois d...

Meu medo estampado

Foi uma noite intensa, mas parece que sobrevivi. Deixa eu te contar... Há alguns anos passei por algumas experiências pesadíssimas para alguém com tão pouca idade e sem força física suficiente para sustentar aquilo que era preciso naquele momento. Contudo, não era nem um pouco fraco. Segurar intelectual e emocionalmente aquela situação era um exercício que exigia muito e acabaria por moldar quem viesse a realizá-lo. Claro que, como qualquer exercício, se realizado em excesso e sem as adequações, causaria consequências ruins. Acredito que seja uma história nova para a maioria, afinal de contas não me lembro de tê-la partilhado com ninguém além da borda da minha família e um ou outro amigo próximo (e olhe lá), mas com certeza não foi com a profundidade e intensidade de agora. Assistindo "Avatar: a Lenda de Korra" percebi novamente o quão importante é, para vencermos os nossos medos, falar sobre eles e é isso o que quero. Havia uma pessoa em minha casa. E ela não era ...

Amor único e a teoria dos afetos

É fim de ano. Já passou o Natal e agora nos encaminhamos para o Réveillon. Nessa época costumo ficar embalado nas músicas da Ivete. A proposta de hoje é justamente essa: pare alguns minutos para ouvir atentamente essa música. Se conseguiu acompanhar a letra, percebeu que ela tem a ver com amor. São vários momentos, desejos e pensamentos que a Ivete compartilha enquanto canta. Parece até uma carta cantada para alguém a quem se ama. Mas aqui fica a pergunta: para quem cantaria essa música? Pare um pouco e reflita sobre isso. Para qual tipo de relacionamento, para qual(is) pessoa(s) você escreveria ou cantaria uma música assim? Já me fiz esse questionamento algumas vezes de Novembro para cá. Também joguei essa intriga para alguns amigos (que ficaram impressionados com a música da Ivete). Algumas respostas foram bem vagas. Existem aqueles que ficaram bem confusos e me pediram para dissertar sobre, tentar explicar melhor onde eu queria chegar com isso. Um deles me respondeu que não...