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Entre olhares

"Os olhos são a janela para a alma", já ouvi milhares de vezes e também já o disse. A gente transparece demais por nossos olhos. Mesmo aquelas pessoas com "olhar de cigana oblíqua e dissimulada". Por isso, leia este texto e depois se olhe no espelho. Quero te convidar para ler entre olhares. Quando era mais novo, me diziam que eu tinha um olhar de menino carente, que pedia para ser cuidado. Um olhar sereno que dizia para quem olhasse que eu estava ali para trocar experiências boas. Transparecia carinho e um desejo de ser acolhido para poder compartilhá-lo. Olhos brilhantes e inocentes. Doce olhar infantil. Algum tempo depois os olhos passaram a brilhar de outras formas. Na maioria das vezes dava para ver algo como um clarão que acendia uma chama de fúria e conquista. O coração já tinha adquirido os seus calos para conseguir subir montanhas mais altas e queria, como a maior parte dos adolescentes engajados em buscar o seu lugar no mundo, descobrir o que havia no...

Eu escolhi esperar

Este texto não fala sobre sexo, doutrina, fofoca ou religião. Nem sobre campanhas que envolvem tudo isso. Também não fala sobre o David Luiz ou da Seleção Brasileira na Copa de 2014. Muito menos fala sobre a fila pra comprar o novo iPhone ou o tempo para a aposentadoria. Há quase um mês sofri uma lesão chata no meu ombro esquerdo. Não tinha marca alguma para distinguir se foi uma pancada ou se havia dado um jeito. Mas não era só no ombro: outra região próxima foi afetada e ninguém conseguia distinguir onde estava a origem, o que havia acontecido, qual (ou quais) parte(s) do interior havia(m) sido atingida(s). Isso me fez parar com os meus exercícios diários, o que diminuiu minha energia e, por consequência, levou a lesão ao único lugar que tinha certeza que havia sido acertado em cheio: minha cabeça. Fiquei enlouquecido nesse período. Cabisbaixo, confuso, perdido numa rotina que não era minha, mas que se parecia. E junto com isso um turbilhão de sensações horríveis d...

Direito e privilégio

Voltei à Universidade. O curso não é necessariamente algo que me faça pular de alegria por gastar meu precioso tempo com ele. Geralmente o que se ensina no dia a dia da graduação são informações técnicas, de leitura e interpretação do ordenamento criado como um velho fato social, generalizado, anterior e coercitivo. As fileiras de carteiras dispostas tal qual um templo em que se vai ouvir a pregação, dificultando a troca de olhares e a partilha de conhecimentos e sensações entre os que ali estão. As disciplinas, salvo algumas exceções, não conseguem tirar mais do que pequenas curiosidades pontuais da minha mente fértil. Os estímulos definitivamente não são apropriados e, aparentemente, pouco será produzido a partir deles. No máximo reproduzido. Ou, no caso, vomitado em provas (e na manutenção de um status quo ). Estava, porém, na expectativa de participar da palestra do professor Barroso. Do tal mundo do Direito, ele é uma das pessoas as quais tenho profundo respeito e até admiro ...

Quando falta amor

Sabe aqueles dias em que tudo começa bem estranho? Quando você acorda alucinado e se perguntando "onde estou?", "o que estou fazendo aqui?", "como vim parar aqui?", "o que é que eu estou fazendo mesmo?" (algumas vezes também rola um "quem sou eu?" ou "por que tá tudo girando?", mas isso é num contexto totalmente diferente e em outro nível alucinógeno). Este foi um dia assim. Posso contar como foi? Acordei em desespero com o despertador tocando incessantemente. É a única coisa que consegue perturbar meu sono profundo e me deixar desnorteado morando sozinho. Levantei meio sem entender o que estava fazendo e cambaleando para desligar o alarme que estava em outro cômodo, o que me obriga a levantar da cama e andar todos os dias. Geralmente, depois de desligá-lo, eu volto para a cama e me deito novamente por causa do frio e para refletir um pouco sobre o que vou fazer durante o dia (na maioria das vezes, quando vou dormir tarde...

O inverno em Junho (un gitano corazón)

A história que mais contei no mês passado e no início deste é sobre a minha busca pelos rastros dos meus antepassados. O meu sobrenome é algo que marca bastante quando alguém me conhece, pois trava a língua da grande maioria (e engana quando não dá para ler). Não é comum, nem mesmo entre aqueles que vieram de fora. No Brasil, a minha família é a única que carrega esse sobrenome (temos um ascendente em comum, meu bisavô) e que sofreu adaptações ao longo do tempo, o que fez com que algumas ligações fossem perdidas com as origens. Diziam que éramos descendentes de espanhóis, o que de fato somos. Mas pesquisando um pouco mais (e juntando as informações que já tinha), deu para descobrir que a família tinha sua raízes no extremo sul da França (e que tinha acento no 'e'). Além disso, os Berdagué eram ciganos que se deslocaram para o oeste e para o norte. Isso explica como eles chegaram à Espanha e a adaptação do sobrenome. Fora que, futucando um pouco mais no Google, enc...

Por que eu sumi?

Acordei no meio da manhã com o sol batendo forte na fresta da cortina. Sabia que era o meio da manhã porque a rua parecia agitada e barulhenta, como quando fica perto da hora do almoço e as pessoas começam a circular falando em seus celulares e se cumprimentando rapidamente com "Oi, como vai? Temos que nos encontrar qualquer dia desses! Tá sumid@. Até depois!" e somem no capinado até a próxima vez em que o destino (ou seja lá o que for) fizer com que se cruzem na rua de novo, para repetir o bordão. O meu péssimo hábito de fechar as cortinas com esparadrapo e pregador para que o sol não me acorde cedo não deu totalmente certo. Estava acordado antes do horário que eu havia estipulado mentalmente e com o sentimento de que deveria ter dormido pelo menos mais umas 4 horas para dar conta de recarregar as baterias. Nisso também estão inclusas as baterias emocionais e espirituais para aguentar mais um dia com gente que não consigo nem olhar na cara por muito tempo. ...

A inveja e a inspiração em pó

Tenho um problema sério e preciso compartilhar: tenho inveja das pessoas na academia (e na rua).  Pronto, falei! Não tenho inveja de quem quer virar "monstrão" (ou que mete a cara na batata doce e frango), mas tenho de quem tem o corpo esbelto e definido (e que tá super de boa com o molde de escultura grega que tem). Eu olho para as estátuas e depois fico admirando as pessoas que chegaram àquele nível. Às vezes eu até me pergunto como os gregos (ou se) chegavam ao patamar de suas obras e se eram todos daquele jeito. Fora isso, é bem difícil eu encontrar um objeto de inveja. Talvez só quando vejo gente viajando e esbanjando cultura. E aproveitando o tempo melhor do que eu. Em certos momentos eu invejo quem tem capacidade de estudar e gostar do meu curso, mas passa rápido, é só dar o tempo de eu piscar. Ah sim, e quando falta internet ou água em casa e o vizinho do outro lado da rua tem. Ou quando minhas amigas vão para casa e têm mães que fazem comida para elas (...